Fraturas da Cabeça do Rádio: Como Avaliar e Tratar

Leonardo Zanesco • 6 de outubro de 2025

A fratura da cabeça do rádio é a fratura mais comum do cotovelo, respondendo por cerca de 4% de todas as fraturas e por mais de 30% das fraturas do próprio cotovelo. A incidência anual estimada é de 2,5 a 2,9 por 10.000 pessoas. Costuma ocorrer entre os 20 e 60 anos, com predomínio feminino acima dos 50. O mecanismo típico é a queda com a mão espalmada, geralmente de baixa energia; traumas esportivos e acidentes automobilísticos, por sua vez, tendem a gerar fraturas mais desviadas e com mais lesões associadas.


Anatomia


A cabeça do rádio é um importante estabilizador secundário do cotovelo, contribuindo para a estabilidade em valgo, posterior e rotatória póstero-lateral. Sua superfície articular (“prato” radiocapitelar) é elíptica e levemente deslocada em relação ao colo, o que importa tanto na reconstrução quanto na artroplastia.


Anatomicamente, o nervo interósseo posterior (ramo do radial) corre muito próximo ao colo do rádio e pode ser acometido pelo trauma ou, mais frequentemente, iatrogenicamente durante a abordagem cirúrgica. Para protegê-lo, mantém-se o antebraço em pronação e evita-se a colocação de afastadores na face anterior do colo do rádio ou dissecção distal ao tubérculo do bíceps.



Classificação de Broberg e Morrey


Tipo I: fratura não desviada (depressão <2 mm), sem bloqueio mecânico da rotação e com acometimento de <30% da superfície articular.

Tipo II: fratura parcial com deslocamento >2 mm e/ou >30% da superfície articular, podendo gerar bloqueio da rotação.

Tipo III: fratura cominutiva que envolve toda a cabeça do rádio.

Tipo IV: qualquer fratura da cabeça do rádio associada à luxação do cotovelo.



Exames de Imagem


Radiografias em AP e perfil costumam fazer o diagnóstico quando há desvio; nas fraturas sem desvio, os sinais do coxim gorduroso (anterior e posterior) podem ser a única pista inicial. A incidência radiocapitelar ajuda a perfilar a cabeça do rádio. Para definir com precisão o número de fragmentos, localização e grau de desvio — e para pesquisar lesões associadas (coronoide, capitelo, fragmentos osteocondrais) — a tomografia é o método preferencial. Ressonância raramente é necessária na fase aguda.



Critérios para escolha do tratamento


Optamos por tratamento não cirúrgico quando:


  • Exame clínico não mostra bloqueio de prono-supinação nem de flexo-extensão
  • Ausência de fragmento solto intra-articular
  • Desvio <2 mm
  • Acometimento articular menor que ~30% 
  • Sem sinais de instabilidade do cotovelo ou de lesão axial do antebraço (DRUJ/membrana interóssea).


Reabilitação no Tratamento Conservador


A condução dá ênfase à mobilização precoce: imobiliza-se apenas pelos primeiros dias (2–3 dias ou, até no máximo, uma semana conforme a dor), seguido de exercícios ativos com tipoia apenas para conforto. Imobilizações prolongadas pioram o prognóstico de extensão — acima de 2 semanas houve perda de extensão num ensaio randomizado. Fisioterapia é iniciada cedo, com reavaliação clínica e radiográfica seriada. 


Tratamento Cirúrgico


Quando há bloqueio mecânico, cominuição importante (fratura em que o osso se fragmenta em vários pedaços), desvio relevante associado à instabilidade, ou fragmento intra-articular retido, a cirurgia tende a oferecer melhor recuperação da mobilidade e da estabilidade. As principais estratégias são: 


  • Excisão da cabeça do rádio: A excisão de pequeno fragmento intra-articular (<25% do diâmetro articular) pode ser indicada quando esse fragmento causa bloqueio de rotação e não é reconstruível. A excisão completa pode ser considerada em fraturas multifragmentares isoladas não fixáveis; entretanto, não deve ser feita se houver lesões ligamentares/ósseas associadas, pois aumenta o risco de instabilidade. Mesmo com ligamentos íntegros, a excisão altera a cinemática do cotovelo e, a longo prazo, associa-se a artrose radiográfica e migração proximal do rádio, embora muitos pacientes mantenham boa função clínica. Avaliação fluoroscópica intraoperatória da estabilidade é mandatória.
  • Reconstrução com placa e parafuso (ORIF): Indicada nas fraturas desviadas e reconstruíveis, especialmente em pacientes jovens, tipicamente quando há três ou menos fragmentos e boa cartilagem. Sinais clássicos usados como guia são desvio >2 mm e acometimento >30% da superfície articular (Mason II), embora a superioridade de operar todos esses casos não esteja definitivamente provada. Em fraturas com >3 fragmentos, os riscos de não união, osteonecrose, falha de fixação e rigidez aumentam; parafusos “countersunk” tendem a gerar menos rigidez do que placas.





  • Artroplastia da cabeça do rádio: A substituição por prótese metálica é muito útil nas fraturas não reconstruíveis, sobretudo quando há instabilidade ligamentar associada (p.ex., “tríade terrível”). Os resultados de médio prazo são bons com vários desenhos protéticos; complicações específicas incluem “overstuffing” (aumento excessivo da altura radial) e afrouxamento. 



Possíveis Complicações


Rigidez do cotovelo é comum após fraturas da cabeça do rádio; em uma coorte tratada conservadoramente por 10 anos, 14% referiam alguma rigidez e 24% dor (geralmente leve), com 92% de satisfação.


A
ossificação heterotópica (OH) tem incidência relatada entre 3% e 50%; sua repercussão clínica é variável e a profilaxia farmacológica tem evidências conflitantes.


A
rtrose pós-traumática é frequente no seguimento longo; em Mason II moderadamente desviadas tratadas sem cirurgia, a incidência radiográfica chegou a 82% em 19 anos, embora com baixa taxa de resultados insatisfatórios. 


Em
artroplastia da cabeça do rádio, séries de médio prazo reportaram lucências no canal do colo em 45%, artrose ulnohumeral em 38% e OH em 36%, com baixa necessidade de reoperação. O “overstuffing” (prótese longa demais) pode reduzir o arco de movimento e causar dor; atenção intraoperatória ao nível correto é essencial.


Quanto ao
nervo interósseo posterior, a lesão iatrogênica é prevenível com técnica adequada (pronação, evitar afastadores anteriores ao colo, não dissecar distal ao tubérculo do bíceps), sendo sua lesão pouco frequente nos dias atuais.


Conheça o Dr. Leonardo Zanesco | Tratamento para Fraturas da Cabeça do Rádio


Se você está em busca de um ortopedista com expertise e experiência em tratamentos conservador e cirúrgico de fraturas da cabeça do rádio, sou o Dr. Leonardo Zanesco, médico assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo do Hospital das Clínicas da USP e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC). Como cirurgião especializado em ombro e cotovelo, ofereço o mais alto padrão de cuidado, adaptado às suas necessidades específicas. Com vasta experiência em técnicas cirúrgicas tradicionais e inovadoras, minha prática é baseada nas evidências científicas, confiança entre médico e paciente, excelência técnica e um profundo conhecimento na área.



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Referências Bibliográficas


  • Morrey, Bernard F; Sanchez-Sotelo, Joaquin; Morrey, Mark E. Morrey's The Elbow and it's Disorders. 5ª edição. Elsevier; 2017.
  • Tornetta III P, Ricci WM, Ostrum RF, McQueen MM, McKee MD, Court-Brown CM. Rockwood and Green’s Fractures in Adults. 9ª edição. Wolters Kluwer; 2020.
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